O futebol está cada vez mais feminino: como jogadoras, árbitras, bandeirinhas ou torcedoras, as mulheres entraram em um terreno por muito tempo considerado estritamente masculino. Agora, até a reposição das bolas que saem de campo é tarefa delas.
O Rio Grande do Sul, desde o ano passado, possui gandulas femininas nos jogos da dupla Gre-Nal no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil, seguindo o exemplo de São Paulo e Minas Gerais. Coordenadas pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), alunas da Escola de Educação Física da UFRGS (ESEF) cumprem esse papel.
Treinamento — O técnico-administrativo Vili Tissot é um dos responsáveis por orientar e acompanhar as alunas nos jogos nos quais trabalham. Por vinte anos, o servidor foi árbitro, por isso a Federação o procurou quando as regras do Campeonato Brasileiro passaram a exigir que os gandulas — no mínimo oito por jogo — não fossem do próprio time.
Outro fator que colaborou para o estabelecimento dessa parceria entre a Universidade e a FGF foi o uso frequente das instalações da ESEF para o treinamento e os testes físicos dos árbitros. Quanto à escolha de mulheres para a função, Vili diz ser parte da filosofia da CBF e da Federação Gaúcha. “Eles pensam em incluir cada vez mais as mulheres no futebol. Desde o tempo em que eu era árbitro começaram a colocá-las como juízas e bandeirinhas. Agora já realizam campeonatos femininos.”
Para a seleção das alunas, um dos requisitos era haver cursado a cadeira eletiva Futebol Fundamentos, em que são ensinadas as regras e a arbitragem do esporte. A relação com as 16 escolhidas por Vili e pelo professor da disciplina, Luiz Fernando Moraes, foi enviada à Federação, que cadastrou todas.
A partir de então, as garotas receberam orientações específicas, incluindo reuniões coletivas e individuais e palestras com o diretor executivo da Federação, Luiz Fernando Moreira, sobre o perfil de trabalho exigido. Após treinamentos na ESEF e no estádio do Esporte Clube São José, na Zona Norte da capital, a estreia no Brasileirão ocorreu na partida entre Internacional e Atlético Paranaense, em outubro de 2008.
Das selecionadas, algumas acabaram desistindo devido a motivos pessoais. Agora, a intenção é aumentar esse quadro para no mínimo 18 estudantes. “Temos cerca de dez cadastradas que ainda não fizeram a disciplina; o objetivo é incluí-las na medida em que a cursarem. Muitas das que participam do projeto são do interior e viajam no fim de semana para visitar as famílias. Com mais participantes, teremos mais possibilidades de escalação”, argumenta o servidor.
Ângulo diferenciado — Antes do jogo entre Internacional e Vitória, pelo Brasileirão, no dia 14 de junho, as alunas da ESEF se preparavam no vestiário do Estádio Beira-Rio. Reunidas e conversando como um grupo de amigas, as jovens com idade em torno dos 20 anos falaram sobre a experiência de ser gandula.
Atualmente, o clima antes das partidas é de tranquilidade, mas no início elas ficavam nervosas com a dimensão dos eventos. “No começo, a gente achava o máximo entrar no campo. Agora já estamos mais acostumadas”, revela Luiza Reis. Segundo Natálie Rodrigues, é muito diferente assistir ao jogo de um lugar tão próximo: “É outra coisa ver da arquibancada; lá de dentro, conseguimos entender melhor o que acontece”.
Em comum, as alunas da Escola de Educação Física possuem afinidade com o futebol. Jogadoras do time da UFRGS, elas se divertem contando: “Nós jogamos muito bem, somos campeãs gaúchas. Mas só nós nos inscrevemos na competição”. Elas também aproveitam para convidar as estudantes da Universidade a participarem da equipe, que não é formada exclusivamente por alunas da Educação Física. Foi justamente essa paixão pelo esporte que as motivou a se inscreverem no projeto. “Eu tinha curiosidade de conhecer melhor esse meio, porque a gente sabe apenas o que vê pela televisão”, pondera Mariele Santayana de Souza.
Antes de surgir a oportunidade, elas nunca haviam imaginado ser repositoras de bola; até porque, não existia a tradição de mulheres exercendo essa função. “Quando era adolescente, queria ser jogadora de futebol, mas acabei desistindo desse sonho. Não tinha mais pensado em trabalhar com esse esporte até aparecer a oportunidade, ainda mais no âmbito dos grandes clubes. Enquanto me deixarem, eu continuo a ser gandula”, fala Natálie.
Tarefa difícil — Há quem ache que o trabalho de gandula seja fácil. No início de suas atuações, as assistentes de arbitragem eram criticadas pelos torcedores, como explica a estudante Francine Menegotto: “Se a gente demorava, eles xingavam; se éramos muito rápidas, também”.
Os jogadores, com os quais elas revelam ter pouco contato, foram outros que demoraram a se acostumar com a presença feminina na reposição: “Foi engraçado: no começo, alguns jogadores agradeciam quando recebiam a bola. Agora já não acontece mais”, explica Luiza. A estudante conta ainda uma das situações engraçadas pela qual passou: “Em um jogo, coloquei a bola várias vezes em um lado do escanteio sem saber com qual perna o jogador chutava. Até que ele gritou para eu colocar de outra maneira. Então, quando a pus do outro lado, veio outro para cobrar”. Para evitar casos como esse, as gandulas que ficam atrás da linha de fundo sempre perguntam ao goleiro com qual perna ele costuma cobrar o tiro de meta, assim não erram na hora de posicionar a bola ao lado do gol.
Apesar de não existirem regras específicas para auxiliares de arbitragem, algumas noções básicas foram passadas. Uma das principais é sempre repor a bola e apenas depois buscar a que saiu, mesmo que ela venha em direção à gandula. Por isso, o trabalho em equipe é fundamental. Normalmente, enquanto uma devolve a bola para o jogador, a outra busca a que saiu, procurando ser o mais ágil possível.
Não existe posição fixa para cada uma das alunas, assim, todas atuam em diferentes partes do campo. “Nós temos uma rotação, cada partida ficamos em um lugar. Normalmente são duas atrás de cada gol e três em cada lateral”, esclarece Mariele. Em jogos de grande público, como os da dupla Gre-Nal pela Copa do Brasil, o número de gandulas escaladas aumenta. Em partidas como essas, aliás, a pressão é grande: “Em Inter e Flamengo, havia quase 50 mil pessoas no Beira-Rio. Dava para sentir o clima do estádio”, contam.
Embora se pense que seja exaustivo correr atrás das bolas durante o jogo, o pior para elas é ficarem paradas. “A nossa lombar dói muito, porque na verdade a bola sai cada vez de um lado”, revela Mariele. Antes da partida, as estudantes fazem um simples aquecimento, correndo de 15 a 20 metros com a bola na mão. Durante a semana, porém, realizam pelo menos um treino para garantir o preparo físico.
Alguns imprevistos já aconteceram, como em qualquer outra atividade. Certa vez, uma delas enroscou o pé em um cabo de televisão e caiu, levando a torcida à gargalhada. O risco de ser atingida pelas bolas também existe, embora isso quase não aconteça. A maior dificuldade, entretanto, ocorre quando alguma bola cai no fosso do estádio. Por terem menos força física, é preciso que sejam auxiliadas para recuperá-la.
Quando é a equipe para a qual torcem que entra em campo, a atitude continua profissional e não há espaço para manifestações. “É a mesma coisa de sempre: nessa hora não tem time; nosso time é o nosso trabalho. E a gente torce para que ele dê certo”, justifica Mariele. Vili brinca: “Por enquanto, nenhuma colocou a camiseta do Inter ou do Grêmio embaixo do uniforme”.
Reconhecimento — Criticadas no início, principalmente pelos torcedores, as alunas da ESEF começam agora a ganhar espaço no futebol gaúcho e a ter o seu trabalho reconhecido. “Elas têm sido elogiadas inclusive pelos dirigentes dos clubes e pela imprensa. No primeiro jogo, estavam muito nervosas. Agora já são especialistas, rápidas na reposição”, reconhece Vili.
“Os jogos ficaram mais justos. Nos nossos dias de folga, olhamos pela televisão e percebemos que a reposição é muito mais ágil. Por isso acho que a diferença não está em o gandula ser homem ou mulher, mas sim em ser do time ou da Federação. Os do clube influenciavam no jogo. Agora melhorou bastante”, afirma Luiza.
No próximo ano, a expectativa é de que elas sejam relacionadas para participar dos jogos do Campeonato Gaúcho a serem realizados na capital, apesar da não exigência pelo regulamento da competição. O coordenador do projeto, entretanto, sonha mais alto: “É difícil incluir as mulheres nesse tipo de trabalho, mas, se continuarem com esse desempenho, eu acredito que venha por aí uma Libertadores e até, quem sabe, a Copa do Mundo”.
Luciane Costa, estudante do 7.º semestre de Jornalismo da Fabico
Por que gandula?
O futebol nem sempre contou com a figura do gandula. Até certa época, eram os próprios jogadores que se encarregavam de ir atrás das bolas que saíam de campo. Isso antes da chegada de um jogador argentino ao Vasco da Gama, em 1939. Bernardo Gandulla se lesionou e não chegou a ser escalado como titular, mas, para ajudar os companheiros do time carioca, buscava e devolvia as bolas. A torcida vascaína simpatizou com o atacante e, mesmo após seu retorno à Argentina, continuou a chamar de gandulas os encarregados de reposição.
Hoje esse é o termo mais usado para os assistentes de arbitragem no Brasil e, apesar de muitos acharem “gandula” um nome pouco elegante, as alunas da ESEF não se importam de serem chamadas assim. “A gente não se ofende, até fica bem feliz”, orgulha-se Natálie Rodrigues.
*Matéria publicada originalmente no Jornal da Universidade
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