sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Nem todas as bonecas são inocentes*

Minissaia, corpo deitado em um divã com as pernas levemente cruzadas, olhar sedutor. Nas mãos, um doce, responsável pela boca suja de açúcar. A imagem estampada no outdoor, acompanhada do texto “Use e se Lambuze”, se parece com tantas outras que já ilustraram publicidades. Um detalhe, porém, a torna diferente: a modelo tem cerca de cinco anos. O anúncio é de uma marca de roupas para crianças de sua faixa etária.

O marketing dirigido a crianças e adolescentes tem sido alvo de críticas há muito tempo. Questiona-se sua influência quanto à alimentação, à relação com os pais e ao consumo exagerado. Agora a discussão chega ao incentivo à erotização precoce, devido ao forte apelo sensual adotado em algumas campanhas publicitárias voltadas ao público infantil.

Mudança de conceitos - O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como crianças as pessoas com até doze anos de idade incompletos. A infância, porém, não foi a mesma em todas as épocas; em algumas destas, ela sequer existiu como conceito. Segundo a professora Jane Felipe, da Faculdade de Educação da UFRGS, os significados em torno dessa noção podem variar de acordo com o tempo, a classe social, o gênero e a cultura em que as crianças estão inseridas. “O conceito de infância passou por um longo processo de construção, com base em inúmeras teorias de diferentes campos do conhecimento, especialmente nos séculos XVII e XVIII”, explica.

Na Grécia Antiga, por exemplo, a relação sexual entre adultos e crianças podia ser vista como parte de um processo pedagógico. Durante a Idade Média, não havia o cuidado de privar as crianças de certos assuntos e o trabalho infantil era considerado algo normal, sendo tolerado a partir dos sete anos. Com a chegada da Modernidade e dos ideais burgueses, surgiu a visão de infância marcada pela pureza, ingenuidade e inocência. “No século XIX, foram criadas várias leis para garantir proteção e bem-estar à criança, que se consolidaram de modo mais expressivo no século seguinte”, descreve a educadora.

Hoje em dia, é difícil estabelecer quando termina esse período da vida. Até porque, o conceito de infância, em tempos em que crianças são estimuladas desde cedo a ter comportamentos antes considerados adultos, vem perdendo sua força. Para Jane Felipe, “significativas transformações, em combinação com o acesso infantil a informações sobre o mundo adulto, especialmente com o surgimento de novas tecnologias, têm afetado drasticamente as vivências infantis, acarretando uma crise da infância contemporânea”.

Infância à venda - Na programação televisiva, espiãs adolescentes vaidosas ou estudantes às voltas com a primeira relação sexual. Na hora do intervalo comercial, sandália de salto e maquiagens com a assinatura da apresentadora favorita, que em seu programa sempre pergunta às crianças: “Já namora?”. Assim, o incentivo ao namoro e ao cuidado com a aparência não se limita apenas ao universo adulto, estando presente também na vida dos pequenos.

Publicidades de uma marca de sandálias de plástico veiculadas em revistas também são um exemplo desse desenvolvimento precoce. A agência responsável pela campanha a descreveu como sendo “estrelada por top models mais do que exclusivas, até porque eram feitas do mesmo material que a própria sandália: plástico”. As bonecas, no entanto, não tinham nada de infantis. Na verdade, as modelos que lhes emprestaram suas formas possuíam corpos ainda em desenvolvimento. Acompanhando essas imagens, frases como “A menina troca a boneca de plástico por uma sandália, e o papai nunca mais dorme tranquilo” e “Conforme o plástico vai tomando forma, a inocência vai saindo de fininho”.

Por estar ainda em processo de formação de personalidade, a criança é mais suscetível à influência dessas mensagens. A psicóloga e ex-publicitária Maria Helena Masquetti, participante do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana (sociedade sem fins lucrativos com sede em São Paulo), esclarece que os malefícios dos apelos comerciais dirigidos à criança estão em chamar a atenção dela para interesses impróprios para sua idade. “O objetivo é forjar um consumidor precoce, desviando a atenção da criança do seu mundo de fantasias para um mundo de demandas eróticas com as quais elas não estão aptas nem física nem mentalmente para lidar”, diz a especialista.

Adeus, fantasia - Os pais protegem os filhos dos perigos das ruas, deixando-os supostamente seguros em casa com a televisão e a Internet fazendo o papel de babás. Esquecem, porém, que esses meios não possuem um filtro adequado e que todo conteúdo deve ser controlado por eles.

Entre as consequências da erotização precoce estão os distúrbios alimentares, como a bulimia e a anorexia, a gravidez na adolescência e o aumento do número de cirurgias plásticas em corpos ainda em desenvolvimento. “De modo geral, todo o comportamento está mais precoce nas crianças, desde a maneira de se vestir até o modo de se relacionar. Vê-se um número cada vez maior de meninas usando roupas sensuais e de meninos fumando e bebendo como forma de parecerem mais velhos”, revela a psicóloga Maria Helena.

Já o doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e professor da Univates Flávio Meurer pensa que hoje não se pode falar em erotização influenciada pela mídia da mesma forma que se falava nos anos 80. “A Xuxa foi um marco desse fenômeno naquele período, e hoje não se pode dizer que exista um incentivo apenas à sensualidade precoce, mas um estímulo às crianças para que sejam adultas no geral.”

Jane Felipe define essa inserção da criança no universo adulto como um processo de “pedofilização” da sociedade. “As crianças foram descobertas como consumidoras e, ao mesmo tempo, como objetos a serem consumidos”, diz a educadora. Na opinião de Maria Helena, é importante lembrar que a pedofilia – que não compreende apenas o ato sexual com menor de idade, mas também a mera contemplação ou insinuação – já existe sem estímulos para esse comportamento, quanto mais com crianças agindo como “miniadultas”. “Mesmo sendo desaconselhável, um pai e uma mãe podem até achar graça em ver sua filha pequena rebolando sensualmente ao repetir uma coreografia de tema sexual. Porém, não se pode garantir que outros olhares não a observem de forma perigosa”, alerta a psicóloga.


Criança e consumo

Várias instituições têm debatido a questão do consumismo infantil e suas consequências. O Instituto Alana, criado em 1994, tem no Projeto Criança e Consumo um de seus principais meios de ação para denunciar e informar sobre ações de marketing abusivo, procurando evitar seus principais efeitos: obesidade infantil, violência na juventude, sexualidade precoce e irresponsável, materialismo excessivo e desgaste das relações sociais. No sitewww.alana.org.br/CriancaConsumo é possível conhecer um pouco mais sobre sua atuação e fazer denúncias.

*Matéria publicada originalmente no Jornal da Universidade.



segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Papos de RU

Eu sou do tipo que come no RU quase todos os dias – muito pelo preço da refeição, é claro. Na maioria das vezes faço isso sozinha, o que para mim não é nada deprimente. Nessas ocasiões, o mais legal é ficar escutando as conversas do pessoal sentado ao lado. Entre surpresinhas de legumes, iscas e saladas de rúcula, fico sabendo sobre congressos e namoros, vejo as combinações para colar em uma prova difícil e ouço reclamações sobre a comida. Cheguei até a elaborar uma teoria sobre os assuntos mais abordados no RU da Saúde e no do Centro: no primeiro, festas e relacionamentos; no segundo, política, economia e outras discussões mais aprofundadas.

Hoje, comendo frango à dorê no Centro, minha teoria veio abaixo. Um cara com pose de galã (só pose) explicava aos seus amigos nerds os segredos do amor. Coisas como “as gurias nos tratam bem quando querem nos conquistar e depois que estamos apaixonados viramos lixo” (descobriu a América) e “tem que escolher uma guria gostosa, com o peitinho durinho”. Os colegas olhavam para ele, que falava gritando, como se fosse o oráculo dos relacionamentos.

Se ele tava certo, não sei; minha teoria já sei que não. Só me resta almoçar no RU amanhã e escutar mais conversas alheias.



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Hiroshima

Nessa semana, a dica de livro não poderia ser outra (embora com um dia de atraso): Hiroshima, do John Hersey. Escrita em 1946, essa grande reportagem é considerada por muitos a melhor do século XX. Não sei se chega a tanto, mas é leitura obrigatória para quem gosta de jornalismo de verdade.
Em 107 páginas, Hersey conta a história de seis moradores da cidade, desde momentos antes da explosão. Um padre alemão, uma funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, dois médicos, uma viúva e um pastor da Igreja Metodista são os personagens centrais dessa história verdadeira - que impressionou não por detalhes científicos, políticos ou econômicos por trás da bomba, mas pela insignificância das pessoas diante dela.
Agora o melhor: não precisa nem comprar, o livro está na íntegra em http://www.scribd.com/doc/7010311/John-Hersey-Hiroshima.